segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Se dando ao desfrute

A bofetada seca lhe cortou o fôlego por alguns momentos. Ela adorava ser esbofeteada por aquelas mãos grossas dele durante o ato. Normalmente a bofetada vinha no auge da urgência, quando ele, cego de prazer e de fúria, começava a deixar-se levar pelo puro instinto, estocando-a com força, em meio a grunhidos arfantes e animalescos.
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Talvez a bofetada lhe fosse tão prazerosa por trazer a lembrança das pequenas sacanagens da adolescência. Foi depois de uma delas, uma gostosa punheta no primeiro namoradinho, que ela apanhou no rosto pela primeira vez. O tapa foi dado por uma tia que os flagrou no exato momento em que a menina se deliciava com o calor da porra do garoto escorrendo-lhe entre os dedos. “Menina direita não se dá ao desfrute!”, foi a única coisa que ela pôde ouvir em meio ao longo sermão que a tia velha e solteirona lhe passou.
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De alguma forma, o latejar do rosto depois da palmada lhe remetia à linda imagem do garoto imberbe gemendo e gozando em seus dedos. Sentiu um descritível poder, ao ver que era capaz de fazer um homem perder a noção dos sentidos com um simples movimento das mãos. E aquele tapa a fazia lembrar-se disso.
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Agora ela estava ali, anos depois, já livre dos acessos moralistas da tia mal-amada, debaixo de um homem com o dobro do seu peso e tamanho, que a comia com força, socando-lhe um pau enorme, que lhe roubava todo o ar e a deixava fora de si quando entrava até o fundo.
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Dar-se ao desfrute. Era a isso que ela se dedicava com tanto afinco e satisfação. Era a doce lembrança da expressão usada pela tia velha, jugo da qual ela já se libertara. Ela agora dava-se ao desfrute inteiramente, deixando aquela homem grandalhão virá-la de um lado para o outro enquanto fodia-lhe a buceta com violência, transbordando de um prazer feroz e egoísta. Que atingiu o seu auge quando ele tirou a vara, úmida e brilhante dos seus sucos e posicionou na entrada do ânus. Um único golpe, uma única estocada certeira. E ele já deslizava novamente pra dentro dela, agora por trás.
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Doeu. Doeu muito. Mas na própria maneira de gemer, ela acabou traindo-se e revelando que era exatamente o que queria. Há muito ela ansiava por aquela dor. Nada lhe era mais prazeroso que sentir-se usada por alguém indiferente ao que ela poderia sentir diante de uma penetração tão furiosa. O grunhido arfante daquele homem era música, marcado pelas pancadas firmes dos testículos na borda do seu cuzinho dilatado ao máximo.
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Ali, ela deu-se ao desfrute. Libertando-se de todos os seus fantasmas, de todos os medos e tabus que haviam lhe enfiado na carne e na alma, causando-lhe uma dor muito mais profunda e duradoura que poderia lhe proporcionar o mais bruto e bem-dotado dos amantes. Que o mundo acabasse ali, com ela dando-se ao desfrute e servindo de objeto do prazer daquele homem imenso, que a possuía em meio a tapas e palavrões. Que não servia a nenhum outro propósito que não desfrutá-la. E tome mais um tapa seco no rosto. Foi o que bastou para ela gozar mais uma vez.
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2 comentários:

Mauro Sérgio disse...

e tome mais Nelson Rodrigues, agora com uma pitada de Henry Miller

pimenta disse...

Dá tesão!